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Meteotsunami surpreende ilhas espanholas e faz mar avançar sobre praias e áreas urbanas

Fenômeno provocou oscilações de até 1,44 metro no nível do mar nas Ilhas Baleares; diferentemente dos tsunamis tradicionais, evento foi causado por alterações atmosféricas, não por terremoto

Uma rápida e inesperada alteração no nível do mar assustou moradores e turistas das Ilhas Baleares, na Espanha, nesta semana. Entre os dias 24 e 25 de agosto, sucessivos meteotsunamis — conhecidos localmente como rissagas — atingiram pontos de Maiorca, Menorca, Ibiza e Formentera, provocando o avanço da água sobre praias, portos e áreas próximas à orla.

Em Ciutadella, na ilha de Menorca, a Agência Estatal de Meteorologia da Espanha, a Aemet, registrou uma oscilação máxima de aproximadamente 1,44 metro. O valor superou a previsão inicial de variações de até 1,2 metro e colocou a região em alerta.

Outros portos das Ilhas Baleares, como Sant Antoni, La Savina e Andratx, apresentaram mudanças de 50 a 90 centímetros no nível da água. Também foram observados episódios em Alcúdia, Sóller e Port Adriano. Cadena SER

Na praia de s’Arenal, em Sant Antoni de Portmany, na ilha de Ibiza, a água avançou sobre a faixa de areia e atingiu equipamentos montados para um evento musical. Contêineres, caixas térmicas e estruturas provisórias foram deslocados, levando as autoridades a cancelar um show por motivos de segurança. Não houve registro de feridos. Cadena SER

O que é um meteotsunami?

Apesar do nome e da aparência semelhante, o meteotsunami não é provocado por terremotos, erupções vulcânicas ou grandes deslizamentos submarinos.

O fenômeno tem origem na atmosfera. Tempestades, linhas de instabilidade, rajadas de vento e mudanças rápidas na pressão atmosférica exercem força sobre a superfície da água e podem gerar ondas que se propagam em direção ao litoral.

Quando o sistema atmosférico avança na mesma velocidade da onda que está sendo formada, ocorre uma espécie de sincronização. A energia é transferida continuamente para a água, fazendo com que a oscilação aumente. Ao chegar a regiões rasas, enseadas ou portos estreitos, a onda pode ganhar ainda mais intensidade.

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, os meteotsunamis movimentam toda a coluna de água e podem ser amplificados pela plataforma continental rasa e pelo formato de baías, enseadas e portos. NOAA

Por que Ciutadella é tão vulnerável?

A configuração geográfica do porto de Ciutadella transforma o local em um dos principais pontos de ocorrência de meteotsunamis no Mediterrâneo.

O porto é longo, estreito e relativamente fechado. Seu formato favorece a entrada e a amplificação das ondas, como acontece quando a água se movimenta de um lado para o outro dentro de um recipiente. Por isso, uma oscilação moderada em mar aberto pode se tornar muito mais intensa ao alcançar o interior do porto.

Um levantamento científico que analisou 50 anos de registros identificou 191 meteotsunamis em Ciutadella entre 1975 e 2025. Os episódios mais extremos estiveram relacionados a mudanças atmosféricas abruptas associadas a tempestades e chegaram a produzir oscilações superiores a três ou quatro metros em eventos históricos. Estudo sobre os meteotsunamis das Baleares

As autoridades espanholas contam atualmente com um sistema específico de previsão, denominado Balearic Rissaga Forecasting System, desenvolvido para antecipar a formação de meteotsunamis e estimar seus possíveis efeitos no porto de Ciutadella. SOCIB

Não é uma simples onda grande

Uma onda comum movimenta principalmente a parte superior do mar. Já o meteotsunami envolve uma parcela muito maior da coluna de água. Por essa razão, mesmo quando não apresenta grande altura visual, pode produzir correntes intensas e mudanças rápidas no nível do mar.

O perigo também não termina necessariamente após a primeira elevação. A água pode avançar, recuar e voltar repetidas vezes, com intervalos de minutos. Em portos, as correntes podem romper amarras, deslocar embarcações e lançá-las umas contra as outras. Nas praias, pessoas podem ser derrubadas ou arrastadas, enquanto bares, quiosques e estruturas próximas à costa podem ser inundados.

O fenômeno também pode ser confundido com uma maré repentina. Entretanto, as marés astronômicas são previsíveis e se desenvolvem gradualmente, enquanto o meteotsunami surge rapidamente e está relacionado às condições atmosféricas.

Mudanças climáticas têm relação?

Ainda não há uma análise científica que permita atribuir o episódio ocorrido nas Ilhas Baleares diretamente às mudanças climáticas. Meteotsunamis são conhecidos na região há muitos anos e dependem de uma combinação específica entre alterações na pressão atmosférica, velocidade de deslocamento das tempestades, profundidade da água e formato da costa.

O aquecimento global pode aumentar a frequência ou a intensidade de determinados eventos meteorológicos extremos, mas isso não significa que todo meteotsunami seja automaticamente causado pelas mudanças climáticas. Para estabelecer essa relação em um episódio específico, seriam necessários estudos meteorológicos e oceanográficos próprios.

O evento recente reforça, porém, a necessidade de adaptação das cidades costeiras. O aumento da ocupação da orla, a presença de grandes estruturas turísticas e portuárias e a concentração de pessoas nas praias ampliam a exposição ao risco.

O que fazer diante de uma alteração repentina do mar?

Caso o mar recue ou avance rapidamente sem explicação, a recomendação é sair imediatamente da faixa de areia, de píeres, costões e áreas portuárias. Também é importante não se aproximar para filmar ou observar o fenômeno.

As pessoas devem procurar um ponto mais alto e afastado da água, seguir as orientações das autoridades e não retornar à praia após a primeira onda, pois novas oscilações podem ocorrer.

O meteotsunami registrado nas Ilhas Baleares mostra que nem todo “tsunami” começa no fundo do oceano. Em determinadas condições, a própria atmosfera pode transferir energia suficiente para movimentar o mar, provocar inundações repentinas e transformar uma praia aparentemente tranquila em uma área de risco em poucos minutos.

 

Imagem: IA

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