quinta-feira, 27 de agosto de 2026 / 03:37
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Chuvas extremas, erosão e ocupação desordenada ampliam tragédia ambiental na Nigéria

Deslizamentos e enchentes atingiram comunidades de Calabar, provocaram mortes e derrubaram parte de um hospital; degradação do solo, perda de vegetação e falhas de drenagem agravaram os efeitos das chuvas

As imagens impressionantes de parte de um hospital sendo destruída por um deslizamento de terra em Calabar, capital do estado de Cross River, na Nigéria, ganharam repercussão internacional nos últimos dias. Embora o vídeo tenha voltado a circular agora, o desabamento ocorreu em 13 de agosto, após semanas de chuvas persistentes, inundações e movimentos de terra na região.

O prédio atingido era a UNICEM Clinic, localizada nas proximidades de Duke Town Drive e Anansa Road. O solo encharcado perdeu estabilidade, o deslizamento comprometeu a fundação e parte da construção desabou. Moradores perceberam sinais do problema e o imóvel foi evacuado antes do colapso. Até o momento, não há confirmação de mortes especificamente nesse episódio. Al Jazeera

O hospital, entretanto, tornou-se a imagem mais visível de uma crise ambiental muito mais ampla. Entre julho e agosto, sucessivos deslizamentos e enchentes atingiram diferentes comunidades de Calabar e arredores. Segundo informações apresentadas pelo governo de Cross River, um deslizamento em Ikot Anwatim matou cinco pessoas — quatro delas crianças da mesma família —, enquanto outro episódio em Boro Pit/Satellite Town provocou a morte de uma criança.

Uma bebê de apenas um mês também foi arrastada pela correnteza em Elijah Henshaw Street. Em Ekorinim 2, mais de cinco imóveis foram atingidos e pelo menos 15 famílias precisaram deixar suas casas. Considerados em conjunto, os episódios descritos pelas autoridades locais deixaram ao menos sete mortos. Premium Times

Chuva foi o gatilho, mas não explica tudo

As precipitações intensas foram o fator imediato da tragédia. Quando a chuva permanece por vários dias, a água ocupa os espaços existentes no solo, aumenta seu peso e reduz a resistência que mantém encostas e terrenos inclinados estáveis. Se o terreno já estiver degradado ou exposto, o risco de deslizamento se torna ainda maior.

Entretanto, classificar o ocorrido simplesmente como “desastre natural” esconde parte importante do problema. O próprio governo de Cross River reconhece que a vulnerabilidade da região foi agravada por uma combinação de perda de vegetação, degradação do solo, expansão urbana desordenada, escavações, descarte inadequado de resíduos e obstrução dos sistemas de drenagem.

O estado teria perdido aproximadamente 134 mil hectares de cobertura arbórea entre 2001 e 2023. Sem raízes suficientes para ajudar a segurar o solo e sem vegetação para reduzir a velocidade do escoamento da água, a chuva chega mais rapidamente às áreas baixas e às encostas, favorecendo erosões, enxurradas e deslizamentos.

Outro fator preocupante é a chamada erosão em voçorocas, caracterizada pela formação de grandes cortes e crateras no terreno devido ao escoamento concentrado da água. O problema não surgiu agora: documentos do Banco Mundial já identificavam áreas críticas de erosão em Calabar e indicavam a necessidade de reduzir a vulnerabilidade das comunidades e recuperar terrenos degradados. Banco Mundial

Drenagem deficiente transforma chuva em correnteza

A impermeabilização do solo causada por ruas, construções e outras estruturas impede que parte da água seja absorvida naturalmente. Quando bueiros e canais são insuficientes ou estão bloqueados por resíduos, a água passa a correr com maior volume e velocidade pela superfície, escavando o terreno e pressionando encostas e fundações.

Construções instaladas em áreas íngremes ou próximas de grandes erosões ficam especialmente vulneráveis. No caso da UNICEM Clinic, as chuvas saturaram o solo e o deslizamento removeu justamente a sustentação do terreno onde parte do edifício estava apoiada.

O Banco Mundial aponta que as enchentes frequentes e severas na Nigéria são provocadas por chuvas intensas, mas seus impactos são ampliados pela drenagem inadequada, pela degradação ambiental e por limitações na gestão dos riscos. Banco Mundial

Mudanças climáticas exigem análise cuidadosa

As mudanças climáticas estão associadas ao aumento de eventos meteorológicos extremos e dos riscos de inundação na Nigéria. Isso não significa, porém, que seja cientificamente correto atribuir um deslizamento específico exclusivamente ao aquecimento global sem um estudo próprio de atribuição climática.

No caso de Calabar, as chuvas prolongadas foram o gatilho evidente, mas ainda seriam necessárias análises meteorológicas, hidrológicas e geotécnicas para determinar o peso exato das alterações climáticas, das condições do solo, da inclinação das encostas e das intervenções humanas em cada ocorrência.

A tragédia mostra, contudo, que um evento climático se torna muito mais destrutivo quando encontra comunidades expostas, terrenos degradados, drenagem deficiente e construções em áreas vulneráveis.

Recuperar a natureza também é proteger vidas

O governo de Cross River solicitou US$ 25 milhões em apoio internacional para atendimento humanitário, estabilização de encostas, recuperação de sistemas de drenagem, mapeamento das áreas de risco e implantação de mecanismos de alerta precoce.

O planejamento também prevê a restauração de florestas, margens de rios, manguezais e áreas úmidas. Esses ecossistemas funcionam como estruturas naturais de proteção: retêm parte da água, reduzem a velocidade do escoamento, ajudam a estabilizar o solo e diminuem os efeitos de enchentes e erosões.

Mais do que reconstruir os imóveis destruídos, o desafio será impedir que o risco seja reconstruído junto com eles. Isso exige controle da ocupação urbana, fiscalização das construções, limpeza e ampliação da drenagem, recuperação da cobertura vegetal, monitoramento das chuvas e retirada preventiva de famílias que vivem em pontos ameaçados.

A catástrofe de Calabar reforça uma realidade cada vez mais evidente: a chuva pode iniciar o desastre, mas a dimensão da tragédia depende de como o território foi ocupado, cuidado e protegido.

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