terça-feira, maio 21, 2024
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Mudanças do uso na terra ameaçam espécies de preguiça nativas da Mata Atlântica

As espécies de preguiças-de-coleira Bradypus torquatus e Bradypus crinitus, em perigo de extinção e nativas da Mata Atlântica, estão ameaçadas pela perda de habitat, decorrente, sobretudo, do desmatamento para o uso da terra para atividades pecuárias e agrícolas. Já existe mais pasto que floresta nativa na área de distribuição dessas duas espécies. Bradypus crinitus ocorre no Espírito Santo e Rio de Janeiro e Bradypus torquatus é registrada na Bahia e em Sergipe. Um estudo recém-publicado na revista internacional Mammal Review, em janeiro de 2024, avaliou a mudança de uso da terra ocorrida nos últimos 30 anos.

Os pesquisadores Paloma Santos (Instituto Nacional da Mata Atlântica – INMA e Instituto Tamanduá), Juliano Bogoni (UFMS/UNEMAT) e Adriano Chiarello (USP) analisaram a distribuição espacial e temporal dos principais vetores de ameaça antrópica para as duas espécies. O estudo reuniu informações sobre o uso e cobertura da terra associada aos principais riscos às preguiças no intervalo de três gerações (1988 a 2020), para quantificar a área atual ocupada, mudanças temporais, heterogeneidade e intensidade dos vetores de ameaças ao longo da distribuição das espécies.

A conclusão foi que a pecuária ocupa a maior área de ocorrência de ambas as espécies, tornando-se superior aos remanescentes da floresta nativa, sendo a principal causa de perda de habitat para as preguiças. Além da pecuária, outros vetores de ameaças também foram significativos, como a expansão urbana (residenciais e comerciais), agricultura, e  exploração madeireira, incluindo também queimadas e mineração.

“Sem dúvida, a perda de habitat é a principal ameaça para as espécies de preguiças Bradypus torquatus e Bradypus crinitus, já que são animais de hábito estritamente arborícola e folívoro (herbívoro com uma alimentação especializada à base de folhas). Ou seja, dependem das árvores para desempenhar todas as suas atividades diárias. Apesar de conseguirem conviver, até certo ponto, em espaços minimamente modificados, as grandes áreas de criação de gado que substituem a floresta interferem na ecologia e no comportamento das preguiças-de-coleiras, devido à sua alta dependência  de florestas. Com isso, na busca de novas áreas florestais, muitas vezes são forçadas a cruzar longas áreas de pastagens  ou outras áreas antropizadas, ficando expostas a predadores (como cão doméstico, por exemplo) e gastando mais energia para buscar alimento e abrigo”, explica Paloma Santos.

O estudo destaca ainda que houve regeneração florestal nos últimos 30 anos. Porém, no total, a área desmatada foi maior que a área regenerada. Mesmo assim, é importante se investigar se essas áreas regeneradas podem fornecer recursos e condições adequados para as espécies, uma vez que, normalmente, as florestas tropicais podem levar quase 100 anos para atingir uma estrutura complexa, destaca a pesquisadora.

“O aumento do desmatamento da Mata Atlântica, principalmente entre 2019 e 2022, demonstra um provável  descumprimento da Lei da Mata Atlântica, que regulamenta o uso da terra nos limites do domínio. De acordo com a lei, as áreas de vegetação nativa secundária podem ser suprimidas se forem de interesse público e devem ser compensadas. Portanto, é necessário determinar se a retirada da cobertura vegetal está dentro da lei para evitar futuros desmatamentos”, alerta Paloma.

O estudo destaca que restauração, preservação e compensação das áreas deficitárias em toda a Mata Atlântica são essenciais para atingir os principais objetivos de conservação e garantir a manutenção da biodiversidade a longo prazo. Os autores encorajam o uso de certificados de sustentabilidade agrícola que podem incentivar os proprietários de terras a cumprir melhor a regulamentação ambiental.

“O futuro exigirá um melhor planejamento da utilização urbana e econômica do solo, não só para reduzir a perda de habitat e conservar os recursos naturais, mas também para permitir importantes processos de regeneração florestal para garantir a viabilidade a longo prazo das populações selvagens, como as preguiças-de-coleira”, destaca a pesquisadora.

Fonte: Assessoria INMA

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