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Aquecimento do solo pode liberar carbono antes considerado estável, revela estudo de 37 anos

Pesquisa alerta que temperaturas mais elevadas podem alterar a ação dos microrganismos e intensificar a liberação de dióxido de carbono para a atmosfera

Uma pesquisa desenvolvida ao longo de 37 anos revelou que o aquecimento contínuo do solo pode provocar a decomposição de formas de carbono orgânico que, até então, eram consideradas resistentes e capazes de permanecer armazenadas por longos períodos.

O estudo foi realizado em uma floresta experimental de Harvard, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. Durante o trabalho, pesquisadores mantiveram algumas parcelas do solo aproximadamente 5 °C mais quentes do que as áreas ao redor, permitindo observar os efeitos do aumento da temperatura durante várias décadas.

Os resultados foram publicados em 2026 na revista científica Science of the Total Environment. A principal descoberta ocorreu durante a quarta década do experimento, quando os cientistas perceberam que até mesmo parcelas mais persistentes da matéria orgânica começaram a ser degradadas pelos microrganismos presentes no solo.

Carbono armazenado no solo

O solo representa um dos principais reservatórios naturais de carbono do planeta. Parte desse carbono está presente na matéria orgânica formada por raízes, folhas, resíduos vegetais, animais e organismos em diferentes estágios de decomposição.

Além de ajudar no equilíbrio climático, a matéria orgânica melhora a estrutura do solo, favorece a circulação e o armazenamento de água, participa da ciclagem de nutrientes e contribui para a fertilidade das áreas utilizadas na produção de alimentos.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a presença de carbono orgânico está relacionada à capacidade do solo de reter água e nutrientes, reduzir processos erosivos e sustentar a produtividade agrícola no longo prazo.

Durante muito tempo, pesquisadores consideraram que determinadas formas de carbono permaneceriam protegidas no solo mesmo diante do aumento das temperaturas. O novo estudo, entretanto, indica que o aquecimento prolongado pode modificar a comunidade de microrganismos e fazer com que eles passem a decompor materiais que anteriormente permaneciam estáveis.

Nesse processo, parte do carbono é transformada em dióxido de carbono, o CO₂, e liberada para a atmosfera.

Possível ciclo de retroalimentação

A descoberta preocupa porque pode contribuir para um ciclo de retroalimentação climática. O aumento da temperatura aquece o solo, o solo aquecido libera mais carbono e o carbono adicional na atmosfera pode contribuir para um novo aumento da temperatura.

Os pesquisadores ressaltam que os modelos climáticos precisam considerar com maior precisão a resposta dos solos ao aquecimento de longo prazo. Caso contrário, a quantidade de carbono que poderá ser liberada nas próximas décadas pode ser subestimada.

Apesar disso, o estudo não significa que todos os solos reagirão da mesma maneira. O experimento foi realizado em uma floresta de clima temperado, e os resultados não podem ser aplicados automaticamente aos solos tropicais ou às áreas agrícolas brasileiras.

Cada região apresenta características próprias, como temperatura, regime de chuvas, vegetação, tipos de solo, quantidade de matéria orgânica e formas de manejo. Ainda assim, a pesquisa funciona como um alerta sobre os efeitos que o aquecimento prolongado pode produzir em ecossistemas terrestres.

O que a descoberta representa para o campo

Na agricultura, a conservação da matéria orgânica é fundamental para manter a qualidade e a capacidade produtiva do solo. Sistemas com cobertura vegetal, rotação de culturas, menor revolvimento da terra, recuperação de pastagens e integração entre lavoura, pecuária e floresta podem favorecer a proteção do solo e reduzir perdas causadas pela erosão e pela exposição direta ao calor.

A Embrapa destaca que solos manejados inadequadamente podem sofrer alterações nos fluxos de água, na emissão de gases de efeito estufa e na capacidade de enfrentar eventos climáticos extremos.

O novo estudo reforça que as estratégias de armazenamento de carbono no solo devem considerar não apenas a quantidade incorporada, mas também a possibilidade de esse carbono voltar à atmosfera diante de temperaturas mais altas.

Isso não reduz a importância das práticas agrícolas sustentáveis. Ao contrário, aumenta a necessidade de proteger o solo contra a degradação, preservar a cobertura vegetal, ampliar o monitoramento e desenvolver pesquisas adaptadas às condições tropicais.

Pesquisa de longo prazo

Um dos aspectos mais importantes do trabalho é a sua duração. Experimentos realizados durante poucos meses ou anos podem não identificar mudanças que aparecem somente depois de décadas.

No caso estudado, a decomposição das formas mais persistentes de carbono tornou-se evidente apenas durante a quarta década de aquecimento. A descoberta demonstra que os efeitos das mudanças climáticas sobre o solo podem ser lentos, acumulativos e difíceis de reverter.

O solo não é apenas o lugar onde as plantas crescem. Ele é um ecossistema vivo, formado por minerais, água, ar, matéria orgânica e milhões de organismos. Compreender como esse sistema reage ao aumento das temperaturas será decisivo para proteger a produção de alimentos, a biodiversidade e o equilíbrio climático nas próximas décadas.

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