sábado, 1 de agosto de 2026 / 19:56
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El Niño altera rotas migratórias e ameaça a sobrevivência de animais

Mudanças na temperatura dos oceanos e no regime de chuvas interferem na alimentação, reprodução e deslocamento de diversas espécies

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora se origine no oceano, seus efeitos alcançam diferentes regiões do planeta, modificando temperaturas, ventos e regimes de chuva. Essas alterações afetam não apenas as atividades humanas, mas também o comportamento e a sobrevivência dos animais.

Entre os impactos mais importantes está a mudança nos movimentos migratórios. Em termos ecológicos, a migração corresponde ao deslocamento periódico dos animais entre áreas de alimentação, reprodução e descanso. Já a emigração ocorre quando eles deixam determinado território, enquanto a imigração representa a chegada a uma nova região.

Falta de alimento modifica os deslocamentos

Durante o El Niño, o aquecimento das águas pode reduzir a ressurgência — movimento que leva nutrientes das regiões profundas até a superfície do oceano. Com menos nutrientes, ocorre uma diminuição do fitoplâncton, formado por organismos microscópicos que sustentam grande parte da cadeia alimentar marinha.

A escassez começa na base do ecossistema e alcança peixes, aves, tartarugas, focas, leões-marinhos e baleias. Para encontrar alimento, algumas espécies abandonam suas áreas habituais, percorrem distâncias maiores ou passam a ocupar águas mais profundas e frias.

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, durante episódios de El Niño algumas espécies de águas quentes podem avançar para regiões mais ao norte, enquanto peixes adaptados a águas frias tendem a migrar ou procurar maiores profundidades. Os animais que permanecem nas áreas afetadas podem apresentar redução no crescimento, na reprodução e na sobrevivência. NOAA – impactos do El Niño na distribuição dos peixes

Baleias, aves e outros predadores também são afetados

As baleias dependem da disponibilidade de krill e pequenos peixes para se alimentar. Quando esses organismos mudam de localização, os grandes mamíferos marinhos também podem alterar o destino ou o período de suas viagens.

Um estudo publicado na revista Communications Biology identificou que baleias-jubarte ficaram praticamente ausentes de uma área do Oceano Antártico durante os anos de El Niño de 2015 e 2016. Os pesquisadores relacionaram esse comportamento às mudanças nos ventos, no gelo marinho, na produtividade do oceano e na quantidade de krill. Estudo publicado pela Nature

As aves marinhas enfrentam problema semelhante. Quando os cardumes se deslocam ou ficam mais profundos, elas precisam voar mais longe e gastar mais energia para conseguir alimento. Isso pode prejudicar a reprodução e dificultar a alimentação dos filhotes.

Leões-marinhos e focas também podem ampliar suas áreas de busca. Pesquisas realizadas nas Ilhas Galápagos mostram que as condições do El Niño modificam a disponibilidade de presas e aumentam o esforço necessário para que as fêmeas encontrem alimento, afetando a condição e a sobrevivência dos filhotes. Pesquisa publicada na Scientific Reports

Mudanças nos rios e ambientes terrestres

Os impactos não ficam restritos aos oceanos. Em algumas regiões, o El Niño provoca secas prolongadas; em outras, chuvas intensas e inundações. A alteração do nível dos rios pode interromper rotas utilizadas por peixes, répteis e mamíferos aquáticos, além de reduzir áreas de alimentação e reprodução.

Na Amazônia, a seca extrema registrada em 2023 foi intensificada pelo El Niño. A combinação entre baixo nível dos rios e temperaturas elevadas da água ameaçou espécies como o boto-vermelho e o tucuxi, levando o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade a ampliar o monitoramento da fauna. ICMBio – monitoramento dos botos na Amazônia

Nos ambientes terrestres, a falta de chuva diminui a vegetação, os frutos e as fontes de água. Diante disso, mamíferos, aves e outros animais podem emigrar para áreas próximas a rios, propriedades rurais e cidades. Esse movimento aumenta a competição por recursos e pode intensificar conflitos entre seres humanos e animais silvestres.

O perigo da migração fora de época

A migração depende de sinais ambientais, como temperatura, chuvas e disponibilidade de alimentos. Quando o El Niño altera esses sinais, os animais podem iniciar suas viagens antes ou depois do período adequado.

Esse desencontro é chamado de descompasso ecológico. Ele acontece, por exemplo, quando uma ave chega ao local de reprodução depois do período de maior abundância dos insetos utilizados para alimentar seus filhotes.

Em estudo publicado em 2026, pesquisadores verificaram que eventos fortes de El Niño modificaram o ciclo migratório da lula-gigante-do-Pacífico. Durante esses períodos, a reprodução ocorreu mais cedo e as rotas ficaram significativamente mais curtas, tendo a temperatura da superfície do mar como principal fator associado às mudanças. Estudo publicado na revista Communications Earth & Environment

Consequências para todo o ecossistema

A chegada de animais a novas regiões também modifica as relações ecológicas locais. Espécies deslocadas podem competir por alimento, aproximar predadores de novas presas e alterar a atividade pesqueira. Em algumas situações, animais tropicais são encontrados muito além de sua distribuição habitual.

Nem todas as espécies conseguem se adaptar. Animais que dependem de habitats muito específicos, possuem pouca capacidade de deslocamento ou já enfrentam ameaças como poluição, pesca excessiva e destruição ambiental apresentam maior vulnerabilidade.

Por isso, acompanhar o El Niño também é uma medida de proteção da biodiversidade. O monitoramento das águas, dos rios, dos cardumes e das rotas migratórias permite antecipar riscos, orientar a pesca e planejar ações para proteger áreas de alimentação e reprodução.

O El Niño não apenas muda o clima: ele reorganiza temporariamente o mapa da vida. Ao modificar a localização da água e dos alimentos, o fenômeno faz com que milhões de animais precisem mudar seus caminhos para sobreviver.

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