O que parecia ser apenas uma espécie de morcego, conhecido pelo nome científico Trachops cirrhosus, é, na verdade, um complexo de, pelo menos, três espécies distintas, muito parecidas entre si, mas com diferenças genéticas, morfológicas e ecológicas significativas.
O estudo recente publicado em junho na revista científica American Museum Novitates, fez parte da tese de doutorado em Biologia Animal da pesquisadora Bruna Fonseca, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Ufes, sob orientação dos professores Yuri Leite e Albert Ditchfield.
Segundo o estudo, os morcegos, amplamente distribuído desde o México até o sul do Brasil, são predadores e se alimentam de vários animais, como insetos, anfíbios e aves. Eles são conhecidos principalmente por sua habilidade em utilizar o canto estridente de acasalamento das rãs para localizá-las e abatê-las, recebendo o título de morcegos comedores de rãs (frog-eating bats, em inglês).
As suspeitas de que o gênero Trachops teria mais de uma espécie começaram nos anos 1990, quando o professor Albert Ditchfield fazia doutorado na Universidade da Califórnia (Berkeley, EUA) e percebeu que esses morcegos apresentavam uma diversidade genética muito maior do que a esperada entre indivíduos de uma mesma espécie. Isso acabou levando-o a um pós-doutorado no Museu Americano de História Natural, em Nova York (EUA), sob a supervisão da coautora do trabalho, Nancy Simmons.
Em seguida, a pesquisadora Bruna se debruçou no problema e fez uma abordagem mais holística, conhecida como taxonomia integrativa, combinando dados genéticos, morfológicos e ambientais. Foram examinados mais de mil indivíduos e utilizadas 160 sequências de DNA de amostras de Trachops distribuídas do México ao sudeste do Brasil, e oriundas de dez coleções científicas do Brasil e do exterior.
O pesquisador do Museu Americano de História Natural Angelo Soto-Centeno se juntou ao grupo nos últimos anos, para aplicar análises estatísticas mais sofisticadas e testar quantas espécies de Trachops existem. Esse número poderia chegar até sete, mas o resultado mais consistente foi de três espécies: Trachops ehrardti, na Mata Atlântica do sul e sudeste do Brasil; Trachops cirrhosus, amplamente distribuída da Mata Atlântica do Nordeste até o Panamá, passando por toda a Bacia Amazônica; e Trachops coffini, presente da Costa Rica ao México.

