Agricultura, comércio, turismo, pesca e infraestrutura estão entre os setores mais expostos a secas, ondas de calor, chuvas intensas e erosão costeira
O planeta atravessa uma transformação climática sem precedentes na história das medições. Relatório divulgado em 2026 pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta que o sistema climático da Terra está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento do período observado.
Os anos de 2015 a 2025 foram os 11 mais quentes já registrados. Em 2025, a temperatura média global ficou aproximadamente 1,43°C acima dos níveis do período pré-industrial. O aquecimento dos oceanos, o aumento da concentração de gases de efeito estufa e a intensificação de eventos extremos mostram que a mudança não está restrita às previsões para o futuro: ela já afeta cidades, empresas, produtores e governos.
No Espírito Santo, os efeitos econômicos podem ser sentidos desde as lavouras de café até o funcionamento do comércio, dos portos e das atividades turísticas. O Estado reúne uma extensa área costeira, produção agropecuária relevante e municípios sujeitos tanto à escassez hídrica quanto a enchentes e deslizamentos.
Agro capixaba está entre os setores mais expostos
A agropecuária é uma das áreas mais sensíveis às mudanças do clima. O Valor Bruto da Produção Agropecuária capixaba atingiu R$ 31,2 bilhões em 2024. Desse total, mais de R$ 16,4 bilhões vieram da cafeicultura, que respondeu por 52,7% do indicador.
Essa concentração torna a economia rural especialmente vulnerável à falta ou à distribuição irregular das chuvas. Períodos prolongados de seca podem reduzir a disponibilidade de água para irrigação, aumentar os custos de produção e comprometer o desenvolvimento das lavouras.
Por outro lado, chuvas concentradas em poucos dias também causam prejuízos. O excesso de água provoca erosão, dificulta a entrada de máquinas no campo, favorece doenças nas plantas e pode prejudicar tanto a colheita quanto a qualidade dos produtos.
Além do café, atividades como fruticultura, produção de hortaliças e pecuária são afetadas pelas alterações de temperatura e umidade. O calor excessivo provoca estresse nos animais, reduz a produtividade do leite e aumenta o consumo de água. Na agricultura familiar, uma quebra de safra pode representar a perda da principal fonte de renda de toda uma família.
O Incaper mantém ao menos 47 projetos destinados à adaptação da agricultura capixaba às mudanças climáticas, incluindo estudos sobre cafeicultura, fruticultura, pecuária, manejo de água e conservação do solo.
Falta de água também gera impacto econômico
O Espírito Santo já enfrentou episódios recentes de redução significativa da vazão dos rios. Em setembro de 2024, a Agência Estadual de Recursos Hídricos declarou Estado de Alerta em todo o território capixaba diante do prolongamento da escassez hídrica.
Quando a oferta de água diminui, os efeitos ultrapassam as propriedades rurais. Indústrias, estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços também podem enfrentar restrições, aumento de despesas e necessidade de investimentos em sistemas de captação, armazenamento e uso eficiente.
A insegurança hídrica ainda pode provocar conflitos entre diferentes utilizações da água, como abastecimento humano, irrigação, atividade industrial e preservação ambiental.
Chuvas intensas afetam empresas e empregos
No outro extremo estão as tempestades, enchentes e deslizamentos. Além das perdas humanas e sociais, esses eventos provocam danos a lojas, estoques, veículos, estradas, pontes, lavouras e equipamentos.
As fortes chuvas que atingiram o Sul do Espírito Santo em março de 2024 levaram o Governo do Estado a disponibilizar R$ 50 milhões em crédito emergencial para empresas prejudicadas. Também foi criada uma linha de financiamento sem juros destinada a pequenos empreendedores afetados.
Quando uma cidade é atingida por uma enchente, o impacto se espalha por toda a economia. Empresas deixam de funcionar, trabalhadores não conseguem chegar aos seus postos, mercadorias são perdidas e o transporte é interrompido. Mesmo depois que a água baixa, a recuperação pode levar meses.
Os prejuízos recaem ainda sobre o poder público, que precisa reconstruir infraestrutura, prestar assistência à população e recuperar serviços essenciais. Recursos que seriam destinados à saúde, educação ou desenvolvimento econômico acabam direcionados para respostas emergenciais.
Litoral, turismo e pesca também estão ameaçados
O Espírito Santo possui aproximadamente 417 quilômetros de costa. Esse território concentra praias, comunidades pesqueiras, áreas residenciais, atividades turísticas e importantes estruturas logísticas.
A elevação do nível do mar, a erosão costeira, as ressacas e os ventos intensos podem provocar danos em orlas, imóveis, rodovias e equipamentos urbanos. Em Piúma, por exemplo, o Governo do Estado autorizou investimento de R$ 18,8 milhões em uma etapa de revitalização da orla que inclui medidas para conter a erosão costeira.
A perda de faixa de areia e a degradação das praias também atingem pousadas, restaurantes, quiosques, comércio ambulante e outras atividades que dependem da movimentação turística.
Na pesca artesanal, alterações na temperatura do mar e nos ambientes costeiros podem modificar a distribuição das espécies e tornar a atividade mais imprevisível. O resultado pode ser menor renda para comunidades que dependem diretamente dos recursos marinhos.
As operações portuárias e a logística também estão expostas. Ressacas, tempestades e ventos fortes podem dificultar a navegação, interromper atividades e aumentar os custos de manutenção, segurança e seguros.
Prevenção já exige investimentos milionários
A adaptação climática já ocupa espaço relevante no orçamento público. Até o fim de 2025, o Governo do Espírito Santo informou ter garantido mais de R$ 600 milhões em repasses às prefeituras por meio do Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas.
Os recursos são destinados a obras de macrodrenagem, contenção de encostas, construção de barragens, reservatórios, sistemas de captação de água da chuva e estruturas para contenção de enxurradas.
Outro programa voltado à segurança hídrica e à prevenção de desastres prevê investimento total de US$ 113,6 milhões, com financiamento do Banco Mundial e contrapartida estadual.
Esses valores demonstram que a mudança climática não representa apenas uma questão ambiental. Ela influencia decisões de investimento, crédito, seguros, infraestrutura e planejamento urbano.
Adaptação pode criar novas oportunidades
Ao mesmo tempo em que produz riscos, a transformação climática abre espaço para novas atividades econômicas. Obras resilientes, energia limpa, reflorestamento, irrigação eficiente, recuperação de nascentes, monitoramento meteorológico e tecnologias agrícolas podem gerar empregos e atrair investimentos.
Empresas que avaliarem previamente seus riscos climáticos terão melhores condições de proteger instalações, estoques e trabalhadores. Municípios que investirem em drenagem, planejamento urbano e sistemas de alerta poderão reduzir perdas e preservar atividades econômicas.
O desafio para o Espírito Santo será transformar a prevenção em política permanente. Em um cenário climático inédito, esperar o desastre acontecer tende a custar muito mais do que preparar cidades, empresas e propriedades rurais para enfrentar a nova realidade.





